Temporada
de Monta – Dúvidas do Criador
A
temporada de monta já começou nas regiões
mais quentes do Brasil e você pode ser um dos
milhares de proprietários que estão
pretendendo cobrir sua égua nessa Primavera.
Qualquer que seja seu nível de criação
– de uma égua mestiça no fundo
do quintal até um haras formado com número
variável de éguas de qualidade, é
importante que você crie uma expectativa realista
com relação à preparação
e ao manejo reprodutivo de sua matriz.
Devemos ter o conhecimento também, de que a
égua não é uma das mais eficientes
máquinas de reprodução da natureza.
Primeiramente em função da própria
fisiologia reprodutiva do eqüino que possui inúmeros
detalhes e depois por culpa do próprio homem
que raramente seleciona os reprodutores por sua capacidade
reprodutiva e sim por suas inúmeras habilidades
desportivas que nada tem a ver com fertilidade e que
acabam forçando a utilização
de animais com baixa aptidão reprodutiva que
produzem outros animais com baixa aptidão reprodutiva.
Comece se perguntando algumas questões. Esteja
preparado para discutir suas opções
com seu veterinário ou criadores mais experientes
que você. Comunicação e entendimento
são a chave do sucesso na reprodução
de eqüinos.
Que
método de cobertura eu gostaria de usar ?
A
tecnologia atual dá ao criador um enorme leque
de opções para fertilização
da égua, caso sua Associação
permita.
Cobertura Natural
Vantagens: método que tem o maior
índice de fertilidade (70-80%) quando se trabalha
com reprodutores normais. Não necessita controle
tão restrito do ciclo estral. Método
mais barato.
Desvantagens: o risco da égua ser transportada
até o local onde se encontra o garanhão,
se a égua estiver com potro ao pé o
risco é maior ainda. Obviamente a égua
só poderá ser servida por garanhões
que estiverem nas proximidades, pois se a viagem for
de mais de 15 horas, ela tem grandes chances de reabsorver
o embrião no retorno para sua casa, caso esteja
prenhe de menos de 50 dias. Assim, deve-se levar em
conta o preço da estadia no Haras do garanhão.
Inseminação Artificial
Vantagens: método que permite a fertilização
da égua dentro da propriedade, sem o risco
de transportar as éguas e seus preciosos potros
por aí.
Desvantagens: necessita de excelente controle do ciclo
da égua para obtenção de taxas
satisfatórias de prenhez.
Inseminação a fresco: método
utilizado para otimizar a utilização
do garanhão, que com um único ejaculado,
dependendo da qualidade de seu sêmen, pode fertilizar
3 a 6 éguas. Esse sêmen é coletado
pelo veterinário em uma vagina artificial,
preparado, dividido e inseminado na hora. Pode ser
utilizado até 4 horas depois da coleta em temperatura
ambiente, o que permite a coleta em um haras próximo
para inseminação da égua dentro
desse tempo. Evita transporte e estadia da égua
em outra propriedade, mas deve-se considerar os gastos
com o veterinário com relação
à coleta e preparo do sêmen e os exames
da égua para o melhor momento de inseminação.
A taxa de prenhez desse método é a mesma
da cobertura natural. Pode-se ainda regular hormonalmente
duas ou mais éguas e insemina-las todas de
uma vez, reduzindo o custo por égua.
Inseminação com sêmen resfriado:
método muito utilizado quando o garanhão
está a uma distância considerável
da propriedade da égua, impossibilitando o
transporte. Nesse caso, o sêmen é coletado
e preparado como o sêmen fresco, mas depois
é colocado em um recipiente resfriador especial
chamado “Equitainer”. Esse recipiente
nada mais é do que um isopor térmico
preparado para manter o sêmen a uma temperatura
constante de 4° C por até 60 horas. O nível
de fertilidade 24 horas depois da coleta é
por volta de 40 a 60%. Assim o sêmen é
coletado por exemplo no Rio Grande do Sul e despachado
por avião para inseminar uma égua no
Rio de Janeiro dentro de um prazo de 24 horas. A vantagem
óbvia dessa técnica é a possibilidade
da utilização de qualquer garanhão
do território nacional com fertilidade normal.
A desvantagem é que como a taxa de fertilidade
do sêmen cai um pouco mais, o controle do horário
estimado da ovulação da égua
tem de ser bastante acurado, porque o veterinário
vai supor que a égua vai ovular no dia seguinte
e ligar pedindo o sêmen no dia anterior. Se
ele errar o momento da ovulação todo
o trabalho é perdido. Os custos são
os de controlar a égua, coletar o garanhão,
envio do sêmen por avião, coleta do sêmen
no aeroporto de destino , inseminação
da égua e retorno do Equitainer vazio por avião.
Inseminação com sêmen congelado:
uma coisa está mais do que provada: o sêmen
do garanhão não é o melhor do
mundo para ser congelado. A sua taxa de fertilidade
após o descongelamento gira em torno de 30-40%
em garanhões considerados bons. Ainda, nem
todos os garanhões se prestam para congelamento.
Entretanto, o sêmen congelado de animais expoentes
é cada vez mais comercializado no mundo todo.
É importante lembrar também, que ao
contrário dos casos anteriores, onde o dono
da égua só vai pagar a cobertura em
caso de prenhez; a dose de sêmen congelado é
paga independentemente de a égua ficar prenhe
ou não. A grande vantagem é a possibilidade
de cobertura de sua égua com o melhor garanhão
possível em termos internacionais, a utilização
de garanhões em plena atividade desportiva
e ainda garanhões que já morreram.Como
o sêmen congelado tem uma fertilidade menor
ainda, é necessário um controle veterinário
acurado para apontar com exatidão o momento
da ovulação da égua e boa técnica
de manipulação do sêmen para proceder
a inseminação.
Hoje em dia, já existe uma técnica avançada
de inseminação artificial para sêmen
congelado com o auxílio de endoscópio
que deposita o sêmen diretamente na papila da
entrada da trompa da égua, aumentando tremendamente
as chances de prenhez e ainda com a vantagem de se
utilizar apenas ¼ da dose de sêmen congelado
por tentativa, fazendo com que a sua dose paga de
sêmen renda muito mais. Ainda nos custos deve
ser computada a compra de um botijão de nitrogênio
líquido para manutenção do sêmen
e a reposição mensal de nitrogênio.
Transferência de Embriões:
Técnica já masterizada por várias
centrais de reprodução nacionais e utilizada
em vários haras maiores com boa infraestrutura
de reprodução. Permite o aproveitamento
de éguas que continuam a sua campanha desportiva
na reprodução, a utilização
de éguas expoentes que não podem mais
gestar por diferentes razões – desde
problemas de fertilidade até idade avançada;
e ainda a produção de vários
produtos por ano de éguas importantes caso
a Associação permita. Alguns criadores
reduziram seu plantel à 2 ou 3 éguas
expoentes e trabalham tirando vários produtos
por ano destas éguas ou mesmo negociando seus
embriões. As desvantagens são os altos
custos da técnica e a baixa taxa de prenhez
das receptoras no eqüino. Em geral para cada
égua doadora tem que se trabalhar com duas
ou três éguas receptoras que devem ser
de tamanho compatível e ótima fertilidade.
Essas receptoras muitas vezes são alugadas
pelas centrais de reprodução pelo ano
de gestação e devolvidas após
o desmame do potro.
Qual
é o histórico geral de minha égua?
O histórico veterinário de sua égua
pode ser muito importante para decisão de cobertura
porque alguns problemas podem atrapalhar a sua fertilidade,
tais como hipotireoidismo, doenças hepáticas,
aguamento, claudicações importantes,
excesso de medicações durante carreira
desportiva, etc. A dor é um componente importante
causador de reabsorção embrionária
no início da prenhez.
Qual
é o histórico reprodutivo de minha égua?
Perguntas importantes que o veterinário lhe
fará antes de considerar a cobertura de sua
égua:
Quando nasceu o último potro da égua?
Houve alguma complicação pós-parto?
(partos demorados ou problemáticos, lacerações,
retenção de placenta, problemas com
o potro, gêmeos). A gestação normal
da égua é em média de 11 meses.
Qualquer desvio de mais de 18 dias deste tempo médio
deve ser comunicado ao veterinário.
Sua égua cicla normalmente? O ciclo normal
da égua na Primavera-Verão é
de 21 dias com um período de cio que varia
de 4 a 6 dias. Esse ciclo pode ser modificado pela
ação de medicamentos hormonais para
mais ou para menos de acordo com o interesse do criador
em cobrir mais cedo ou em sincronizar éguas
para inseminação ou transferência
de embriões.
Sua égua tem algum histórico de problemas
reprodutivos? Foi coberta várias vezes e não
emprenhou? Reabsorveu após confirmação
de prenhes? Aborto? Natimortos? Potros fracos?
Tudo
isso tem grande efeito nos custos e na probabilidade
de produção de um potro sadio no próximo
ano. Cada caso deve ser muito bem estudado.
Qual
é a taxa de fertilidade presumida de minha
égua?
- Éguas jovens, sem potro ao pé e com
menos de 6 anos de idade tem a maior taxa de fertilidade.
- Éguas paridas, lactentes e éguas jovens
que já criaram, mas que por alguma razão
ficaram vazias no ano anterior requerem atenção
especial. As duas primeiras necessitam excelente acompanhamento
nutricional para permitir que entrem no cio regularmente,
sejam cobertas e possam manter a nova gestação
com o potro mamando, e as terceiras provavelmente
tem algum problema reprodutivo que requer um exame
veterinário mais acurado e possível
tratamento antes de se tentar nova cobertura.
- Éguas de cria velhas – acima de 14
anos, éguas virgens com mais de 9 anos de idade
têm sua taxa de fertilidade bastante reduzida.
A
escolha do garanhão
Lembre-se que a égua entra com pelo menos 55%
da genética de seu produto. Assim de nada adianta
escolher o melhor garanhão do mundo e coloca-lo
em uma égua medíocre esperando obter
um animal da categoria do pai. O que você realmente
conseguirá será um animal com menos
da metade das características do pai que pode
não valer nem o preço da cobertura...
O ideal é escolher um garanhão de qualidade,
com características que reconhecidamente sejam
melhoradoras para os pontos fracos específicos
da sua égua e cujo preço da cobertura
não exceda 30% do preço de mercado de
um produto médio do garanhão.
Eu posso arcar com os custos dessa cobertura?
O
fator do custo da cobertura, do tipo e manejo reprodutivo
utilizado, controles e tratamentos veterinários,
transportes, estadias, etc deve ser bem pesado antes
do proprietário se decidir pela cobertura de
sua égua. A reprodução eqüina
pode se tornar bastante custosa principalmente se
não é produzido um potro vivo ao final
de tudo.
O
criador deve levar em conta que a égua pode
não emprenhar na primeira tentativa, a égua
pode reabsorver no período crítico dos
45 dias iniciais de gestação, e vários
outros problemas podem ocorrer durante o longo período
gestacional da égua. Sua única garantia,
no caso de um trabalho bem feito, é de que
seu veterinário e um bom gerente farão
o possível para assegurar as máximas
chances de concepção e manutenção
da gestação de sua égua. Não
importando o resultado final, proprietários
bem informados sempre têm um nível de
satisfação maior, tanto financeiro como
logístico, com a nem sempre fácil reprodução
eqüina.
Dra. Adriana Busato é Médica
Veterinária, Professora Adjunta de Equídeocultura
na PUC-PR, inspetora da ABCCH e proprietária
do HARAS FB onde cria BH e Hanoverianos.
Apresenta e compete com seus animais em Salto em Circuito
Nacional Amador.
e-mail: haras_fb@harasfb.com.br