03.10.2005
Temporada
de Monta – Dúvidas do Criador
A
temporada de monta já começou
nas regiões mais quentes do Brasil
e você pode ser um dos milhares
de proprietários que estão
pretendendo cobrir sua égua nessa
Primavera. Qualquer que seja seu nível
de criação – de uma
égua mestiça no fundo do
quintal até um haras formado com
número variável de éguas
de qualidade, é importante que
você crie uma expectativa realista
com relação à preparação
e ao manejo reprodutivo de sua matriz.
Devemos ter o conhecimento também,
de que a égua não é
uma das mais eficientes máquinas
de reprodução da natureza.
Primeiramente em função
da própria fisiologia reprodutiva
do eqüino que possui inúmeros
detalhes e depois por culpa do próprio
homem que raramente seleciona os reprodutores
por sua capacidade reprodutiva e sim por
suas inúmeras habilidades desportivas
que nada tem a ver com fertilidade e que
acabam forçando a utilização
de animais com baixa aptidão reprodutiva
que produzem outros animais com baixa
aptidão reprodutiva.
Comece se perguntando algumas questões.
Esteja preparado para discutir suas opções
com seu veterinário ou criadores
mais experientes que você. Comunicação
e entendimento são a chave do sucesso
na reprodução de eqüinos.
Que
método de cobertura eu gostaria
de usar ?
A
tecnologia atual dá ao criador
um enorme leque de opções
para fertilização da égua,
caso sua Associação permita.
Cobertura Natural
Vantagens: método que
tem o maior índice de fertilidade
(70-80%) quando se trabalha com reprodutores
normais. Não necessita controle
tão restrito do ciclo estral. Método
mais barato.
Desvantagens: o risco da égua ser
transportada até o local onde se
encontra o garanhão, se a égua
estiver com potro ao pé o risco
é maior ainda. Obviamente a égua
só poderá ser servida por
garanhões que estiverem nas proximidades,
pois se a viagem for de mais de 15 horas,
ela tem grandes chances de reabsorver
o embrião no retorno para sua casa,
caso esteja prenhe de menos de 50 dias.
Assim, deve-se levar em conta o preço
da estadia no Haras do garanhão.
Inseminação Artificial
Vantagens: método que permite a
fertilização da égua
dentro da propriedade, sem o risco de
transportar as éguas e seus preciosos
potros por aí.
Desvantagens: necessita de excelente controle
do ciclo da égua para obtenção
de taxas satisfatórias de prenhez.
Inseminação a fresco: método
utilizado para otimizar a utilização
do garanhão, que com um único
ejaculado, dependendo da qualidade de
seu sêmen, pode fertilizar 3 a 6
éguas. Esse sêmen é
coletado pelo veterinário em uma
vagina artificial, preparado, dividido
e inseminado na hora. Pode ser utilizado
até 4 horas depois da coleta em
temperatura ambiente, o que permite a
coleta em um haras próximo para
inseminação da égua
dentro desse tempo. Evita transporte e
estadia da égua em outra propriedade,
mas deve-se considerar os gastos com o
veterinário com relação
à coleta e preparo do sêmen
e os exames da égua para o melhor
momento de inseminação.
A taxa de prenhez desse método
é a mesma da cobertura natural.
Pode-se ainda regular hormonalmente duas
ou mais éguas e insemina-las todas
de uma vez, reduzindo o custo por égua.
Inseminação com sêmen
resfriado: método muito utilizado
quando o garanhão está a
uma distância considerável
da propriedade da égua, impossibilitando
o transporte. Nesse caso, o sêmen
é coletado e preparado como o sêmen
fresco, mas depois é colocado em
um recipiente resfriador especial chamado
“Equitainer”. Esse recipiente
nada mais é do que um isopor térmico
preparado para manter o sêmen a
uma temperatura constante de 4° C
por até 60 horas. O nível
de fertilidade 24 horas depois da coleta
é por volta de 40 a 60%. Assim
o sêmen é coletado por exemplo
no Rio Grande do Sul e despachado por
avião para inseminar uma égua
no Rio de Janeiro dentro de um prazo de
24 horas. A vantagem óbvia dessa
técnica é a possibilidade
da utilização de qualquer
garanhão do território nacional
com fertilidade normal. A desvantagem
é que como a taxa de fertilidade
do sêmen cai um pouco mais, o controle
do horário estimado da ovulação
da égua tem de ser bastante acurado,
porque o veterinário vai supor
que a égua vai ovular no dia seguinte
e ligar pedindo o sêmen no dia anterior.
Se ele errar o momento da ovulação
todo o trabalho é perdido. Os custos
são os de controlar a égua,
coletar o garanhão, envio do sêmen
por avião, coleta do sêmen
no aeroporto de destino , inseminação
da égua e retorno do Equitainer
vazio por avião.
Inseminação com sêmen
congelado: uma coisa está mais
do que provada: o sêmen do garanhão
não é o melhor do mundo
para ser congelado. A sua taxa de fertilidade
após o descongelamento gira em
torno de 30-40% em garanhões considerados
bons. Ainda, nem todos os garanhões
se prestam para congelamento. Entretanto,
o sêmen congelado de animais expoentes
é cada vez mais comercializado
no mundo todo. É importante lembrar
também, que ao contrário
dos casos anteriores, onde o dono da égua
só vai pagar a cobertura em caso
de prenhez; a dose de sêmen congelado
é paga independentemente de a égua
ficar prenhe ou não. A grande vantagem
é a possibilidade de cobertura
de sua égua com o melhor garanhão
possível em termos internacionais,
a utilização de garanhões
em plena atividade desportiva e ainda
garanhões que já morreram.Como
o sêmen congelado tem uma fertilidade
menor ainda, é necessário
um controle veterinário acurado
para apontar com exatidão o momento
da ovulação da égua
e boa técnica de manipulação
do sêmen para proceder a inseminação.
Hoje em dia, já existe uma técnica
avançada de inseminação
artificial para sêmen congelado
com o auxílio de endoscópio
que deposita o sêmen diretamente
na papila da entrada da trompa da égua,
aumentando tremendamente as chances de
prenhez e ainda com a vantagem de se utilizar
apenas ¼ da dose de sêmen
congelado por tentativa, fazendo com que
a sua dose paga de sêmen renda muito
mais. Ainda nos custos deve ser computada
a compra de um botijão de nitrogênio
líquido para manutenção
do sêmen e a reposição
mensal de nitrogênio.
Transferência de Embriões:
Técnica já masterizada por
várias centrais de reprodução
nacionais e utilizada em vários
haras maiores com boa infraestrutura de
reprodução. Permite o aproveitamento
de éguas que continuam a sua campanha
desportiva na reprodução,
a utilização de éguas
expoentes que não podem mais gestar
por diferentes razões – desde
problemas de fertilidade até idade
avançada; e ainda a produção
de vários produtos por ano de éguas
importantes caso a Associação
permita. Alguns criadores reduziram seu
plantel à 2 ou 3 éguas expoentes
e trabalham tirando vários produtos
por ano destas éguas ou mesmo negociando
seus embriões. As desvantagens
são os altos custos da técnica
e a baixa taxa de prenhez das receptoras
no eqüino. Em geral para cada égua
doadora tem que se trabalhar com duas
ou três éguas receptoras
que devem ser de tamanho compatível
e ótima fertilidade. Essas receptoras
muitas vezes são alugadas pelas
centrais de reprodução pelo
ano de gestação e devolvidas
após o desmame do potro.
Qual
é o histórico geral de minha
égua?
O histórico veterinário
de sua égua pode ser muito importante
para decisão de cobertura porque
alguns problemas podem atrapalhar a sua
fertilidade, tais como hipotireoidismo,
doenças hepáticas, aguamento,
claudicações importantes,
excesso de medicações durante
carreira desportiva, etc. A dor é
um componente importante causador de reabsorção
embrionária no início da
prenhez.
Qual
é o histórico reprodutivo
de minha égua?
Perguntas importantes que o veterinário
lhe fará antes de considerar a
cobertura de sua égua:
Quando nasceu o último potro da
égua?
Houve alguma complicação
pós-parto? (partos demorados ou
problemáticos, lacerações,
retenção de placenta, problemas
com o potro, gêmeos). A gestação
normal da égua é em média
de 11 meses. Qualquer desvio de mais de
18 dias deste tempo médio deve
ser comunicado ao veterinário.
Sua égua cicla normalmente? O ciclo
normal da égua na Primavera-Verão
é de 21 dias com um período
de cio que varia de 4 a 6 dias. Esse ciclo
pode ser modificado pela ação
de medicamentos hormonais para mais ou
para menos de acordo com o interesse do
criador em cobrir mais cedo ou em sincronizar
éguas para inseminação
ou transferência de embriões.
Sua égua tem algum histórico
de problemas reprodutivos? Foi coberta
várias vezes e não emprenhou?
Reabsorveu após confirmação
de prenhes? Aborto? Natimortos? Potros
fracos?
Tudo
isso tem grande efeito nos custos e na
probabilidade de produção
de um potro sadio no próximo ano.
Cada caso deve ser muito bem estudado.
Qual
é a taxa de fertilidade presumida
de minha égua?
- Éguas jovens, sem potro ao pé
e com menos de 6 anos de idade tem a maior
taxa de fertilidade.
- Éguas paridas, lactentes e éguas
jovens que já criaram, mas que
por alguma razão ficaram vazias
no ano anterior requerem atenção
especial. As duas primeiras necessitam
excelente acompanhamento nutricional para
permitir que entrem no cio regularmente,
sejam cobertas e possam manter a nova
gestação com o potro mamando,
e as terceiras provavelmente tem algum
problema reprodutivo que requer um exame
veterinário mais acurado e possível
tratamento antes de se tentar nova cobertura.
- Éguas de cria velhas –
acima de 14 anos, éguas virgens
com mais de 9 anos de idade têm
sua taxa de fertilidade bastante reduzida.
A
escolha do garanhão
Lembre-se que a égua entra com
pelo menos 55% da genética de seu
produto. Assim de nada adianta escolher
o melhor garanhão do mundo e coloca-lo
em uma égua medíocre esperando
obter um animal da categoria do pai. O
que você realmente conseguirá
será um animal com menos da metade
das características do pai que
pode não valer nem o preço
da cobertura...
O ideal é escolher um garanhão
de qualidade, com características
que reconhecidamente sejam melhoradoras
para os pontos fracos específicos
da sua égua e cujo preço
da cobertura não exceda 30% do
preço de mercado de um produto
médio do garanhão.
Eu posso arcar com os custos dessa cobertura?
O
fator do custo da cobertura, do tipo e
manejo reprodutivo utilizado, controles
e tratamentos veterinários, transportes,
estadias, etc deve ser bem pesado antes
do proprietário se decidir pela
cobertura de sua égua. A reprodução
eqüina pode se tornar bastante custosa
principalmente se não é
produzido um potro vivo ao final de tudo.
O
criador deve levar em conta que a égua
pode não emprenhar na primeira
tentativa, a égua pode reabsorver
no período crítico dos 45
dias iniciais de gestação,
e vários outros problemas podem
ocorrer durante o longo período
gestacional da égua. Sua única
garantia, no caso de um trabalho bem feito,
é de que seu veterinário
e um bom gerente farão o possível
para assegurar as máximas chances
de concepção e manutenção
da gestação de sua égua.
Não importando o resultado final,
proprietários bem informados sempre
têm um nível de satisfação
maior, tanto financeiro como logístico,
com a nem sempre fácil reprodução
eqüina.
Dra. Adriana Busato é
Médica Veterinária, Professora
Adjunta de Equídeocultura na PUC-PR,
inspetora da ABCCH e proprietária
do HARAS FB onde cria BH e Hanoverianos.
Apresenta e compete com seus animais em
Salto em Circuito Nacional Amador.
e-mail: haras_fb@harasfb.com.br