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12.09.2005

A Alimentação e o Comportamento do Cavalo

A prática alimentar corriqueira de nossos cavalos nos Clubes e Hípicas definitivamente faz mal aos nossos animais. Para o cavalo, a vida de estabulagem intensiva e duas refeições por dia é como viver em uma prisão, e este estilo de trato em muito contribui para problemas de saúde e de comportamento nos eqüinos.
Os arraçoamentos concentrados em geral contêm uma grande quantidade de carboidratos solúveis (açucares) e um baixo percentual de fibras, o que permite ao cavalo consumir rapidamente sua ração, ficando posteriormente um longo tempo sem comida disponível. Os carboidratos são rapidamente digeridos no trato intestinal do cavalo e sua fermentação rápida pode levar à cólica ou laminite (aguamento). Este tipo de regime reduz o volume de alimento necessário para manter a função e posição normais do trato gastrintestinal e deixa o cavalo insatisfeito. Outro problema com as dietas de alto teor de carboidrato se relaciona com a redução do tempo e volume da ingesta no estômago, que pode levar à formação de úlcera gástrica.
Se o seu “cavalo problema” é daquele tipo altamente excitável e difícil de lidar, uma boa dieta para estes animais deve incluir um alto percentual de gordura (óleo vegetal). Estudos demonstram que a adição de 10% de gordura a uma alimentação típica composta de feno/grãos reduziu a excitabilidade em cavalos que foram expostos a estímulos deflagradores de reação. Isso indica que a gordura na dieta possui um efeito calmante nos cavalos. A excitabilidade nos cavalos tem mais a ver com a fonte da energia (carboidrato) do que com a quantidade de energia.

Suplementos à base de magnésio também demonstraram possuir efeito calmante em muitos animais excitáveis.

O efeito contrário já era obtido empiricamente com os cavalos de corrida de antigamente, pois para obter cavalos mais excitados e alertas os treinadores alimentavam os animais exclusivamente com aveia e milho que são fontes altamente energéticas de carboidratos. As rações peletizadas de antigamente (mais de 10 anos atrás) davam ênfase aos níveis protéicos e poucas tinham níveis suficientes de energia disponível como estes grãos em forma pura. Por isso se dizia que as rações eram “fracas” para cavalos de alta performance e eram desdenhadas por muitos treinadores. Hoje em dia, as rações têm altíssima tecnologia e podem-se encontrar rações comerciais com formulação energética para qualquer nível de trabalho sem as desvantagens da fermentação dos grãos na forma pura.

Para os que possuem cavalos com problemas comportamentais como engolidores de ar e os que mastigam tudo o que encontram como portas, cercas e a cola de outros cavalos, além do componente genético comprovado, existe um componente ativado pela falta de fibra na dieta. Entretanto, alguns animais mesmo soltos no campo apresentam o comportamento mastigatório, o que leva os pesquisadores a crer que este é um comportamento normal no eqüino. Percebe-se um aumento nestes quadros quando a pastagem está muito rala ou quando o piquete está muito molhado.

Para os que engolem ar, um comportamento estereotipado, há aumento do problema em animais alimentados com rações altamente concentradas em volume insuficiente; rações com alto teor de melaço e em animais alimentados em esquema irregular. Também foi demonstrado que os animais que engolem ar produzem mais saliva do que os que não engolem e que o pH do estômago dos cavalos que engolem ar é mais baixo do que o dos que não engolem, predispondo estes animais às úlceras gástricas.

É claro que nem todos os problemas comportamentais no cavalo têm causa nutricional e é bastante difícil discernir os efeitos da nutrição de outros fatores potenciais como stress ambiental.

A prevenção dos maus hábitos inicia no nascimento. Deve-se ter em mente o componente genético destes problemas e redobrar a atenção em animais descendentes de linhagens que apresentam problemas, especialmente nas matrizes, pois os potros tendem a repetir o comportamento de suas mães. É mais fácil prevenir o aparecimento destes hábitos indesejáveis do que combatê-los após o estabelecimento. Proprietários e tratadores vigilantes e com sensibilidade podem identificar sinais iniciais de ansiedade e estereótipos nos cavalos e individualizar o manejo destes animais para evitar que o comportamento se fixe.


Dra. Adriana Busato é Médica Veterinária, Professora Adjunta de Equídeocultura e Diretora do Curso Superior Seqüencial de Ciências Eqüinas da PUC-PR, Juíza da ABCCH e proprietária do HARAS FB onde cria BH e Hanoverianos.
e-mail: haras_fb@harasfb.com.br

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