| |
| |
|
|
TODOS
A BORDO!

Se você nunca passou pelo teste de paciência
que é tentar embarcar um cavalo ou potro nem
um pouco cooperativo em um caminhão ou trailer,
você tem muita sorte.
A maioria dos proprietários conhece bem esse
cenário por experiência pessoal e lembra
bem dos sentimentos de frustração e de
raiva normalmente envolvidos. É uma receita para
problemas e traumas. De fato, muitos estudiosos acreditam
que a maioria dos ferimentos nos animais ocorrem na
hora do carregamento e descarregamento dos animais e
quase nunca durante a viagem propriamente dita.
Entretanto, embarcar e desembarcar seu cavalo de um
caminhão ou trailer não tem de ser obrigatoriamente
um evento de risco. Com cabeça no lugar e bom-senso,
podemos manter todos os envolvidos no processo calmos
e a salvo.
O FATOR MEDO:
As pessoas tendem a esquecer a razão principal
pela qual um cavalo não entra em um veículo.
Os cavalos têm medo do caminhão ou trailer.
E quando um cavalo tem medo, ele faz qualquer coisa
para sair da situação. Isso inclui empacar,
escoicear, empinar, se atirar para trás, passar
por cima da pessoa que o está guiando, tentar
passar por espaços onde ele não cabe,
etc. Essa situação piora quando acidentalmente
ele escorrega e cai no caminhão, ficando preso
entre as separações. A pessoa que está
puxando o cavalo é a que fica mais vulnerável
ao seu desespero, podendo se machucar seriamente.
A situação normalmente é exacerbada
quando as pessoas não se programam para a possibilidade
do cavalo dar problema para embarcar e organizam fretes
em cima da hora dos eventos. Quando as pessoas estão
atrasadas, normalmente perdem a paciência mais
rápido. Essas pessoas são as que provavelmente
tentarão agredir o cavalo para que ele embarque
logo e isso só reforçará o medo
e a relutância do animal em embarcar.
Na maioria das vezes, quando consegue colocar o cavalo
temeroso dentro do caminhão, a pessoa o tranca
lá dentro e segue viagem o mais rápido
possível. Novamente, estamos reforçando
o terror que o cavalo sentia do caminhão. O cavalo
tinha medo de entrar naquele buraco escuro porque ele
não sabia se poderia sair dali. O fato de ser
trancado lá dentro e sair chacoalhando por aí
sem poder sair confirma seu temor inicial. Fica cada
vez mais difícil colocá-lo de novo em
um caminhão...
A única maneira de ajudar o cavalo a perder o
medo é mostrar-lhe que ele pode sair dali. Isso
significa embarcar e desembarcar várias vezes.
O ideal é que se comece quando o cavalo é
bem jovem e mais fácil de dominar. Muitas pessoas
costumam carregar e descarregar potros bem jovens junto
com suas mães dentro dos caminhões para
que eles as sigam e percam o medo do “buraco escuro”.
Mas se seu cavalo já é mais velho, tire
uma tarde ou um dia sem pressa nenhuma simplesmente
para embarcá-lo e desembarcá-lo. A primeira
vez vai levar algum tempo. Assim que você conseguir
embarcá-lo sem agressão, agrade-o, dê-lhe
uma guloseima e tire-o do caminhão. Repita. Repita.
Repita. Você vai perceber que cada vez vai levar
menos tempo para embarcar seu animal. Depois desta fase,
você pode experimentar pará-lo sobre a
rampa, agradá-lo e sair sem entrar totalmente
e depois entrar e deixá-lo alguns minutos amarrado
lá dentro, ficando ao lado dele para acalmá-lo.
A meta de todo esse processo é conseguir com
que o cavalo se sinta confortável com o processo
e assegurar-lhe de que ele vai SAIR do caminhão.
Essa é a técnica que melhor funciona com
cavalos que se atiram para trás ao entrar nos
caminhões e com aqueles que quando a porta se
abre enlouquecem para sair e ao serem desamarrados saem
atropelando quem está segurando o cabo.
Passear os cavalos puxados no cabo ou mesmo montados
pelo embarcador sem o caminhão também
é uma boa idéia, para que ele se acostume
com a pequena rampa e com o local de embarque sem a
presença do caminhão.
Utilize-se também do “sentido de manada”
que é muito forte, especialmente em cavalos jovens.
Eles temem ficar sozinhos “sem a turma”
em uma situação perigosa. Assim, sempre
embarque o animal mais experiente na frente do jovem
ou do temeroso. Muitas vezes, o medo de ficar só
é maior do que o medo do “buraco escuro”
onde seu companheiro desapareceu. No desembarque SEMPRE
retire do caminhão o cavalo inexperiente antes.
Se ele ficar sozinho lá dentro sem seus companheiros
ele provavelmente ficará muito nervoso ou mesmo
entrará em pânico.
DILEMAS DE TREINAMENTO
Treinamento é a regra da segurança. Quanto
melhor treinado o cavalo, menor a probabilidade dele
se machucar ou machucar alguém.
Antes de apresentar um caminhão ou trailer para
seu cavalo, deve-se prestar atenção em
como seu cavalo se comporta conduzido pelo cabo ou guia.
Se você não tem um bom controle de seu
cavalo em situações corriqueiras, seguramente
você terá problemas quando quiser colocá-lo
no caminhão. Seu cavalo deve ser capaz de seguir
ao seu lado tranqüilamente, parar e esperar, virar
para os dois lados e recuar quando você pedir
sem qualquer reação. Essas manobras devem
ser repetidas em vários tipos de terreno. Também
é importante que o cavalo esteja acostumado a
cruzar calmamente ao seu lado por portas, passagens,
portões, poças de água e obstáculos.
Esse treinamento é importante para reforçar
a confiança do animal nele mesmo e em você
como líder.
Ao tentar embarcar o cavalo relutante, jamais fique
próximo demais de sua garupa e NUNCA tente fazer
com que ele se mova para frente com um tapa na garupa.
Parece ridículo dizer uma coisa dessas, mas todos
os dias pessoas experientes fazem isso.
Outra técnica perigosíssima é a
“corda humana” onde duas pessoas cruzam
os braços por trás do cavalo e o empurram
para dentro do caminhão. Se o cavalo se jogar
para trás ou der um coice é o fim da brincadeira.
Menos perigoso para os ajudantes é passar uma
corda por trás dos quartos do animal e ficar
com uma ponta de cada lado da entrada não permitindo
que o cavalo venha para trás. Claro que se ele
realmente quiser vir para trás não serão
duas pessoas que terão força para segurá-lo
e normalmente as cordas queimam as mãos dos assistentes
e o cavalo se enrosca nas cordas, ficando cada vez mais
temeroso de se aproximar do “buraco escuro”.
Preferentemente não sede cavalos para viajar.
Cavalos sedados não são senhores de seus
movimentos e tem muito maior probabilidade de se machucarem
e machucarem quem está em volta. Podem ainda
perder o equilíbrio durante a viagem e cair no
caminhão.
VEÍCULOS-ARMADILHAS
Literalmente, os cavalos vêem os caminhões
e trailers como armadilhas. Percepção
que é muito aumentada quando o teto é
muito baixo, a entrada é muito estreita ou o
interior do veículo está totalmente escuro.
Mesmo um cavalo acostumado a embarcar pode se recusar
a entrar em um local muito apertado ou muito escuro.
Um caminhão proporcional, um embarcador bem iluminado
e luz dentro do caminhão podem resolver uma grande
parte dos problemas de embarque.
A melhor maneira de embarcar um cavalo é que
o ambiente esteja calmo, com no máximo dois ajudantes,
que ele seja guiado por alguém que ele conheça
com alguma coisa de que ele goste nas mãos (açúcar,
cenoura). A cada passo que ele der em direção
do caminhão, deve ser encorajado com voz calma,
agrados e uma recompensa para que relaxe e se distraia.
Leve o tempo que levar. A paciência é muito
importante. Só force o movimento para frente
quando sentir que o cavalo abaixou a cabeça e
relaxou a musculatura. Passo a passo. Os ajudantes devem
ficar em ambos os lados quietos, sem agredir o cavalo,
a uma distância segura, pressionando apenas com
a sua presença o cavalo para frente.
DICAS PARA UM EMBARQUE SEGURO:
- Sem quinas ou pontas – dê a volta em todo
o veículo e embarcador e passe a mão nas
portas, janelas, divisórias, argolas de amarrar,
correntes e cabos para encontrar locais potencialmente
perigosos e conserte ou cubra.
- Portas internas – o caminhão deve possuir
portas de divisória bem encaixadas e com fácil
sistema de liberação em caso de emergência
- Cabos com mosquetão de segurança –
importantíssimo evitar amarrar o cavalo diretamente
nas correntes comumente encontradas no caminhão.
É quase impossível soltar esse tipo de
mosquetão em caso de emergência.
- Caminhões inteiramente fechados, apesar do
calor, são muito mais seguros que caminhões
abertos, onde um cavalo desesperado pode “ver”
uma saída que não existe e tentar se atirar
por um vão ou por cima. Portas tipo “boiadeiro”,
onde o cavalo tem de se abaixar para entrar são
um convite ao perigo e esses caminhões não
devem ser utilizados para transporte de eqüinos.
- Ambiente não claustrofóbico - o caminhão
e o box interno devem servir ao tamanho do cavalo. Cavalos
crioulos, mangalargas e mesmo PSIs são menores
do que cavalos de salto. Tenha isso em mente quando
contratar um caminhão preparado para outra raça
para transportar seu cavalo.
- Uma boa rampa – muito importante para dar firmeza
e confiança para o cavalo que embarca. Não
deve ser muito curta para que a inclinação
não seja muito forte e também deve ter
piso antiderrapante para evitar escorregões.
Ainda não pode ser empenada, onde uma ponta fica
no solo e outra ponta fica no ar, e quando o cavalo
pisa ela se move e faz barulho assustando o animal e
ainda levantando uma ponta de ferro onde o cavalo pode
se ferir. A rampa deve ser preferentemente protegida
com guarnições laterais para evitar que
o cavalo possa cair para os lados. Na dobradiça
da tampa deve ser colocada uma proteção
de madeira para evitar que o cavalo coloque uma pata
no buraco.
- Um bom embarcador – iluminado, com bom piso,
largo com laterais protegidas e altura compatível
com a rampa do caminhão sempre serão um
convite para o cavalo embarcar e uma segurança
para as pessoas e animais.
- Proteções – para levar um cavalo
em um caminhão para qualquer lugar, sempre proteja
suas patas. Lembre-se de que os acidentes acontecem
no embarque ou desembarque, não interessa o tempo
de viagem. O preço de um bom jogo de protetores
de viagem é bem menor do que o da visita do veterinário
e dos remédios... O tipo de protetor ideal é
o que cobre até o casco, cobrindo os talões
e sobe até o alto das canelas. Leve também
em conta que protetores muito grossos podem esquentar
demais em temperaturas altas e deixar o animal nervoso.
Se o protetor não cobrir o casco, devem ser colocados
cloches para protegê-los e evitar pisaduras. Sempre
retire os rampões das ferraduras antes de embarcar.
Dra.
Adriana Busato é Médica Veterinária,
Professora Adjunta de Equídeocultura na PUC-PR,
Juíza da ABCCH e proprietária do HARAS
FB onde cria BH e Hanoverianos.
Apresenta e compete com seus animais em Salto em Circuito
Nacional Amador.
e-mail: haras_fb@harasfb.com.br
|
|
|
|
|