22.06.2005
TODOS
A BORDO!

Se você nunca passou pelo teste
de paciência que é tentar
embarcar um cavalo ou potro nem um pouco
cooperativo em um caminhão ou trailer,
você tem muita sorte.
A maioria dos proprietários conhece
bem esse cenário por experiência
pessoal e lembra bem dos sentimentos de
frustração e de raiva normalmente
envolvidos. É uma receita para
problemas e traumas. De fato, muitos estudiosos
acreditam que a maioria dos ferimentos
nos animais ocorrem na hora do carregamento
e descarregamento dos animais e quase
nunca durante a viagem propriamente dita.
Entretanto, embarcar e desembarcar seu
cavalo de um caminhão ou trailer
não tem de ser obrigatoriamente
um evento de risco. Com cabeça
no lugar e bom-senso, podemos manter todos
os envolvidos no processo calmos e a salvo.
O FATOR MEDO:
As pessoas tendem a esquecer a razão
principal pela qual um cavalo não
entra em um veículo. Os cavalos
têm medo do caminhão ou trailer.
E quando um cavalo tem medo, ele faz qualquer
coisa para sair da situação.
Isso inclui empacar, escoicear, empinar,
se atirar para trás, passar por
cima da pessoa que o está guiando,
tentar passar por espaços onde
ele não cabe, etc. Essa situação
piora quando acidentalmente ele escorrega
e cai no caminhão, ficando preso
entre as separações. A pessoa
que está puxando o cavalo é
a que fica mais vulnerável ao seu
desespero, podendo se machucar seriamente.
A situação normalmente é
exacerbada quando as pessoas não
se programam para a possibilidade do cavalo
dar problema para embarcar e organizam
fretes em cima da hora dos eventos. Quando
as pessoas estão atrasadas, normalmente
perdem a paciência mais rápido.
Essas pessoas são as que provavelmente
tentarão agredir o cavalo para
que ele embarque logo e isso só
reforçará o medo e a relutância
do animal em embarcar.
Na maioria das vezes, quando consegue
colocar o cavalo temeroso dentro do caminhão,
a pessoa o tranca lá dentro e segue
viagem o mais rápido possível.
Novamente, estamos reforçando o
terror que o cavalo sentia do caminhão.
O cavalo tinha medo de entrar naquele
buraco escuro porque ele não sabia
se poderia sair dali. O fato de ser trancado
lá dentro e sair chacoalhando por
aí sem poder sair confirma seu
temor inicial. Fica cada vez mais difícil
colocá-lo de novo em um caminhão...
A única maneira de ajudar o cavalo
a perder o medo é mostrar-lhe que
ele pode sair dali. Isso significa embarcar
e desembarcar várias vezes. O ideal
é que se comece quando o cavalo
é bem jovem e mais fácil
de dominar. Muitas pessoas costumam carregar
e descarregar potros bem jovens junto
com suas mães dentro dos caminhões
para que eles as sigam e percam o medo
do “buraco escuro”.
Mas se seu cavalo já é mais
velho, tire uma tarde ou um dia sem pressa
nenhuma simplesmente para embarcá-lo
e desembarcá-lo. A primeira vez
vai levar algum tempo. Assim que você
conseguir embarcá-lo sem agressão,
agrade-o, dê-lhe uma guloseima e
tire-o do caminhão. Repita. Repita.
Repita. Você vai perceber que cada
vez vai levar menos tempo para embarcar
seu animal. Depois desta fase, você
pode experimentar pará-lo sobre
a rampa, agradá-lo e sair sem entrar
totalmente e depois entrar e deixá-lo
alguns minutos amarrado lá dentro,
ficando ao lado dele para acalmá-lo.
A meta de todo esse processo é
conseguir com que o cavalo se sinta confortável
com o processo e assegurar-lhe de que
ele vai SAIR do caminhão. Essa
é a técnica que melhor funciona
com cavalos que se atiram para trás
ao entrar nos caminhões e com aqueles
que quando a porta se abre enlouquecem
para sair e ao serem desamarrados saem
atropelando quem está segurando
o cabo.
Passear os cavalos puxados no cabo ou
mesmo montados pelo embarcador sem o caminhão
também é uma boa idéia,
para que ele se acostume com a pequena
rampa e com o local de embarque sem a
presença do caminhão.
Utilize-se também do “sentido
de manada” que é muito forte,
especialmente em cavalos jovens. Eles
temem ficar sozinhos “sem a turma”
em uma situação perigosa.
Assim, sempre embarque o animal mais experiente
na frente do jovem ou do temeroso. Muitas
vezes, o medo de ficar só é
maior do que o medo do “buraco escuro”
onde seu companheiro desapareceu. No desembarque
SEMPRE retire do caminhão o cavalo
inexperiente antes. Se ele ficar sozinho
lá dentro sem seus companheiros
ele provavelmente ficará muito
nervoso ou mesmo entrará em pânico.
DILEMAS DE TREINAMENTO
Treinamento é a regra da segurança.
Quanto melhor treinado o cavalo, menor
a probabilidade dele se machucar ou machucar
alguém.
Antes de apresentar um caminhão
ou trailer para seu cavalo, deve-se prestar
atenção em como seu cavalo
se comporta conduzido pelo cabo ou guia.
Se você não tem um bom controle
de seu cavalo em situações
corriqueiras, seguramente você terá
problemas quando quiser colocá-lo
no caminhão. Seu cavalo deve ser
capaz de seguir ao seu lado tranqüilamente,
parar e esperar, virar para os dois lados
e recuar quando você pedir sem qualquer
reação. Essas manobras devem
ser repetidas em vários tipos de
terreno. Também é importante
que o cavalo esteja acostumado a cruzar
calmamente ao seu lado por portas, passagens,
portões, poças de água
e obstáculos. Esse treinamento
é importante para reforçar
a confiança do animal nele mesmo
e em você como líder.
Ao tentar embarcar o cavalo relutante,
jamais fique próximo demais de
sua garupa e NUNCA tente fazer com que
ele se mova para frente com um tapa na
garupa. Parece ridículo dizer uma
coisa dessas, mas todos os dias pessoas
experientes fazem isso.
Outra técnica perigosíssima
é a “corda humana”
onde duas pessoas cruzam os braços
por trás do cavalo e o empurram
para dentro do caminhão. Se o cavalo
se jogar para trás ou der um coice
é o fim da brincadeira.
Menos perigoso para os ajudantes é
passar uma corda por trás dos quartos
do animal e ficar com uma ponta de cada
lado da entrada não permitindo
que o cavalo venha para trás. Claro
que se ele realmente quiser vir para trás
não serão duas pessoas que
terão força para segurá-lo
e normalmente as cordas queimam as mãos
dos assistentes e o cavalo se enrosca
nas cordas, ficando cada vez mais temeroso
de se aproximar do “buraco escuro”.
Preferentemente não sede cavalos
para viajar. Cavalos sedados não
são senhores de seus movimentos
e tem muito maior probabilidade de se
machucarem e machucarem quem está
em volta. Podem ainda perder o equilíbrio
durante a viagem e cair no caminhão.
VEÍCULOS-ARMADILHAS
Literalmente, os cavalos vêem os
caminhões e trailers como armadilhas.
Percepção que é muito
aumentada quando o teto é muito
baixo, a entrada é muito estreita
ou o interior do veículo está
totalmente escuro. Mesmo um cavalo acostumado
a embarcar pode se recusar a entrar em
um local muito apertado ou muito escuro.
Um caminhão proporcional, um embarcador
bem iluminado e luz dentro do caminhão
podem resolver uma grande parte dos problemas
de embarque.
A melhor maneira de embarcar um cavalo
é que o ambiente esteja calmo,
com no máximo dois ajudantes, que
ele seja guiado por alguém que
ele conheça com alguma coisa de
que ele goste nas mãos (açúcar,
cenoura). A cada passo que ele der em
direção do caminhão,
deve ser encorajado com voz calma, agrados
e uma recompensa para que relaxe e se
distraia. Leve o tempo que levar. A paciência
é muito importante. Só force
o movimento para frente quando sentir
que o cavalo abaixou a cabeça e
relaxou a musculatura. Passo a passo.
Os ajudantes devem ficar em ambos os lados
quietos, sem agredir o cavalo, a uma distância
segura, pressionando apenas com a sua
presença o cavalo para frente.
DICAS PARA UM EMBARQUE SEGURO:
- Sem quinas ou pontas – dê
a volta em todo o veículo e embarcador
e passe a mão nas portas, janelas,
divisórias, argolas de amarrar,
correntes e cabos para encontrar locais
potencialmente perigosos e conserte ou
cubra.
- Portas internas – o caminhão
deve possuir portas de divisória
bem encaixadas e com fácil sistema
de liberação em caso de
emergência
- Cabos com mosquetão de segurança
– importantíssimo evitar
amarrar o cavalo diretamente nas correntes
comumente encontradas no caminhão.
É quase impossível soltar
esse tipo de mosquetão em caso
de emergência.
- Caminhões inteiramente fechados,
apesar do calor, são muito mais
seguros que caminhões abertos,
onde um cavalo desesperado pode “ver”
uma saída que não existe
e tentar se atirar por um vão ou
por cima. Portas tipo “boiadeiro”,
onde o cavalo tem de se abaixar para entrar
são um convite ao perigo e esses
caminhões não devem ser
utilizados para transporte de eqüinos.
- Ambiente não claustrofóbico
- o caminhão e o box interno devem
servir ao tamanho do cavalo. Cavalos crioulos,
mangalargas e mesmo PSIs são menores
do que cavalos de salto. Tenha isso em
mente quando contratar um caminhão
preparado para outra raça para
transportar seu cavalo.
- Uma boa rampa – muito importante
para dar firmeza e confiança para
o cavalo que embarca. Não deve
ser muito curta para que a inclinação
não seja muito forte e também
deve ter piso antiderrapante para evitar
escorregões. Ainda não pode
ser empenada, onde uma ponta fica no solo
e outra ponta fica no ar, e quando o cavalo
pisa ela se move e faz barulho assustando
o animal e ainda levantando uma ponta
de ferro onde o cavalo pode se ferir.
A rampa deve ser preferentemente protegida
com guarnições laterais
para evitar que o cavalo possa cair para
os lados. Na dobradiça da tampa
deve ser colocada uma proteção
de madeira para evitar que o cavalo coloque
uma pata no buraco.
- Um bom embarcador – iluminado,
com bom piso, largo com laterais protegidas
e altura compatível com a rampa
do caminhão sempre serão
um convite para o cavalo embarcar e uma
segurança para as pessoas e animais.
- Proteções – para
levar um cavalo em um caminhão
para qualquer lugar, sempre proteja suas
patas. Lembre-se de que os acidentes acontecem
no embarque ou desembarque, não
interessa o tempo de viagem. O preço
de um bom jogo de protetores de viagem
é bem menor do que o da visita
do veterinário e dos remédios...
O tipo de protetor ideal é o que
cobre até o casco, cobrindo os
talões e sobe até o alto
das canelas. Leve também em conta
que protetores muito grossos podem esquentar
demais em temperaturas altas e deixar
o animal nervoso. Se o protetor não
cobrir o casco, devem ser colocados cloches
para protegê-los e evitar pisaduras.
Sempre retire os rampões das ferraduras
antes de embarcar.
Dra. Adriana Busato é
Médica Veterinária, Professora
Adjunta de Equídeocultura na PUC-PR,
Juíza da ABCCH e proprietária
do HARAS FB onde cria BH e Hanoverianos.
Apresenta e compete com seus animais em
Salto em Circuito Nacional Amador.
e-mail: haras_fb@harasfb.com.br