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03.07.2007

ESTUDO DAS BOLETEIRAS MELHORADORAS DE DESEMPENHO EM CAVALOS DE SALTO
Daniel Dal´Olio

Orientador do Projeto – Adriana Busato
Curso de Ciências Eqüinas
Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Resumo – O objetivo do presente estudo é apresentar os diferentes modelos de boleteiras de peso e incômodo, utilizadas em cavalos de hipismo e discutir suas principais ações.

Palavra-chave: Boleteira – cavalo de salto – técnica de salto



Introdução

As boleteiras foram desenvolvidas para proteger os cavalos durante o trabalho, evitando que o animal se machuque quando encoste um pé no outro, em várias modalidades eqüestres.
Entretanto, na modalidade de salto, alguns cavaleiros perceberam que o uso de boleteiras muito apertadas ou pesadas tinha um efeito benéfico na sustentação do posterior do cavalo no ar durante o salto, incorrendo em menos faltas feitas pelos posteriores dos animais nas provas.
Por conta disso, a partir dos anos 90, foram desenvolvidos diversos modelos de boleteiras com pesos e boleteiras de incômodo ou pressão.
Tais equipamentos são largamente utilizados em provas oficiais, devido a sua legalidade perante a Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) e a Federação Eqüestre Internacional (FEI), que considera essa uma técnica não abusiva ao cavalo.
Esse artigo visa apresentar os diferentes tipos de boleteiras e comentar suas principais ações.

Metodologia

Para a elaboração deste artigo foram feitas pesquisas de campo por meio de entrevistas com treinadores de cavalos de hipismo, veterinários, e proprietários de cavalos de hipismo; pesquisas bibliográficas e testes pessoais.


Discussão e Resultados

Há no mercado inúmeros modelos diferentes de boleteiras de performance, não existindo ainda uma que sirva em todos os animais, mesmo por que não são todos os cavalos que se beneficiam com o uso das boleteiras de incômodo ou peso. A função desejada é a utilização destes artifícios em cavalos com deficiência em erguer e soltar seus posteriores durante o salto. Esse defeito pode ocorre devido à falhas no treinamento, má conformação do animal ou por falta de talento do animal para o esporte.

BOLETEIRAS DE PESO:
No caso das boleteiras de peso, trabalha-se com boleteiras de couro, que possuem placas de chumbo em seu interior. Quando colocadas nos pés de um cavalo, além de gerar um incômodo, ainda geram um desequilíbrio. Imaginando-se o posterior do cavalo como um pêndulo, quando o mesmo salta, seu posterior é jogado para trás. (FIG. 1)


FIGURA 1- Cavalo soltando o posterior para trás


Seria o princípio de uma pessoa balançando os braços sem nada nas mãos e balançando os braços com um peso em ambas as mãos. Quanto mais na extremidade do membro estiver o peso, maior a sua ação e mais difícil é interromper a inércia do movimento.
Na hora do salto a força feita pelo cavalo com o peso gera um desequilíbrio, por conta da inércia do peso, embalando esse posterior mais para trás e mais para cima, do que esse posterior iria chegar sem peso nenhum. Não existe um peso padrão nestas boleteiras; este valor oscila entre 100g a 800g em cada boleteira. (FIG. 2)



FIGURA 2 – Boleteira de peso

BOLETEIRAS DE PRESSÃO:
As boleteiras de pressão ou incômodo normalmente são feitas de couro, que além de ser mais resistente e pouco móvel ainda é relativamente pesado. Vários modelos de boleteira têm surgido, com alturas e larguras diferentes.
As boleteiras mais antigas, não tinham um ponto exato para gerar o incômodo, sendo apenas colocadas mais apertadas do que o normal nos pés dos cavalos. (FIG.3) Tais boleteiras eram bastante grandes, chegando a uma altura de 25 cm e uma largura de 20 cm. Muitos cavaleiros simplesmente utilizavam as caneleiras mais altas produzidas para proteção dos membros anteriores nos membros posteriores, com aperto extra.


FIGURA 3– Boleteira de incômodo antiga.

O efeito das boleteiras de pressão ocorre porque o cavalo possui dois pequenos ossos acessórios fixados lateral e medialmente ao terceiro metatarso (canela do cavalo) conhecidos como segundo e quarto metatarseanos, sob o quais correm os ligamentos sesamoideos superiores (ou suspensores do boleto). Paralelos a esses ossos rudimentares, descendo em direção ao casco, existem os nervos plantares medial e lateral. (FIG. 4) É sobre essa área que agem a maioria das boleteiras de incômodo, fazendo com que o cavalo solte seu posterior para cima e para trás durante o salto.

Figura 4 - Vistas Lateral (A) e Medial (B) da região inferior do membro posterior do cavalo. Os pontos anatômicos sobre os quais agem as boleteiras de pressão são: 10: Terceiro Metatarsiano; 11 e 11a: Quarto Metatarsiano e Segundo Metatarsiano; 22: Nervo Plantar Lateral; 14 e 15: Ligamento Sesamoideo Superior (Suspensor do Boleto).

Depois da descoberta do ponto anatômico específico que produzia o maior resultado, surgiram diversos modelos de boleteiras visando pressionar e gerar uma irritação sobre a parte distal dos ossos acessórios, ligamentos e nervos anexos. A maioria destes acessórios possui três tiras de aperto com velcro bem largas para fixar com grande pressão o equipamento no membro do cavalo.
Ainda se observa nas provas uma versão mais nova da boleteira da fig. 3. É uma boleteira de couro sem peso, um pouco menor que a anterior, com 21 cm de altura por 22 cm de largura. O avanço ficou por conta da presença de protusões internas de espuma de 8cm de altura por 2cm de largura, que pressionam exatamente sobre os pontos anatômicos já descritos. Fig 4


FIGURA 4 – Boleteira de incômodo grande. Notar a presença das protusões internas de pressão

O último avanço nesse equipamento foi idealizado e lançado no mercado pelo cavaleiro olímpico brasileiro Álvaro Afonso de Miranda (Doda). Esta boleteira não tem peso e é pequena. Tem de 22 cm tanto de altura quanto de largura e as protusões internas possuem 8 cm de comprimento, com apenas duas tiras de aperto. (FIG 5). “Não faz sentido utilizar boleteiras tornando o posterior mais pesado e volumoso e esperar que seu cavalo fique mais eficaz.” MIRANDA ¹. O equipamento tem seu funcionamento parecido com o modelo anterior, porém a pressão se dá na canela mais abaixo dos metatarseanos acessórios, sobre os nervos plantares que seguem paralelos à linha de pressão, até a entrada no boleto. Nota-se que o efeito obtido por essa boleteira é similar ao dos equipamentos maiores anteriores, o que nos leva a crer que o que efetivamente funciona é a forte pressão sobre os nervos plantares.


FIGURA 5 – Boleteira de incômodo Modelo Doda.

O terceiro tipo de boleteira seria uma fusão dos modelos acima Surgiram as boleteiras de incômodo com peso. Nestes modelos, o peso pode ser fixo ou possuir lugares para o encaixe das placas de chumbo.
Essas boleteiras agem das duas maneiras: geram um incômodo pela pressão na lateral da canela e um desequilíbrio quando o animal salta. Em geral estas boleteiras são mais leves do que as exclusivamente de peso. Seu peso gira em torno de 100g até 400g.
A fig. 6 mostra um modelo deste equipamento com peso fixo de 300g. Possui 18 cm de altura 23 cm de largura. As protusões internas medem 9cm, com duas tiras de velcro. É uma boleteira considerada muito forte.
Outro tipo de boleteira mista é a apresentada na fig. 5. Essa tem efeito mais leve por possuir protusões internas bem menores e a possibilidade de modificação no peso, uma vez que têm um local onde as barras de chumbo podem ser alteradas. Em geral, são utilizadas sem os pesos em uma região mais alta do metatarso e com os pesos sobre os boletos.



FIGURA 6 – Boleteira de incômodo e peso.


FIGURA 7 – Boleteira de incômodo e pressão.

Discussões e Conclusões

Muita polemica já ocorreu no que diz respeito à função e necessidade especifica deste tipo de artifício no cavalo de salto. Efetivamente muito pouco destes efeitos foi esclarecido por testes comprovatórios científicos e realmente nada garante que uma boleteira de peso ou de incômodo fará com que qualquer cavalo que a utilize apresente melhora do seu emprego de posterior durante o salto e nem que um tipo específico de boleteira fará com que todos os cavalos soltem seu posterior.
Cada boleteira apresenta um tamanho especifico assim como cada cavalo apresenta conformação diferenciada do segundo e quarto metatarsianos, sendo uns mais longos, outros menores. Alguns animais têm maior sensibilidade nos ligamentos suspensores do boleto e nervos localizados na área do que outros.
Com relação às boleteiras de peso; animais com pouca musculatura de membro posterior ou pouco condicionamento podem ser lesionados pelo esforço extra do peso sem força muscular para contrabalançar seu efeito.
O responsável pelo animal deveria avaliar a real condição física e conformacional de seu animal e testar os vários tipos de boleteiras com visão crítica em relação aos seus reais benefícios.
Infelizmente, por ser um equipamento liberado ao uso em competições, o que se vê muitas vezes é o uso indiscriminado desses artifícios por pessoas que não tem o conhecimento e discernimento necessário para tal, muitas vezes não obtendo nenhuma melhora na qualidade do salto e chegando a lesionar seus cavalos.


Referências

[1] MIRANDA, Álvaro Afonso. Disponível em: < www.sidelinesnews .com/1802 /gSidelights Mikmer.html > Acesso em: 02 de Junho de 2006.

GOODY,Peter C. Anatomia Del Caballo – Ed. Acribia, Zaragoza – Espanha, 1976. Pág. 66 e 67.

Arnd Bronkhorst Photography. Disponível em: < www.arnd.nl > Acesso em 12 de Junho de 2006.

PAALMAN,Anthony.Training Showjumpers. Ed. Publishers, London, 1984.

LOVING, Nancy. Conformation and Performance. New York: Imprelibros, 1997.

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