ESTUDO DAS BOLETEIRAS MELHORADORAS DE DESEMPENHO EM CAVALOS
DE SALTO
Daniel Dal´Olio
Orientador do Projeto – Adriana Busato
Curso de Ciências Eqüinas
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Resumo
– O objetivo do presente estudo é apresentar
os diferentes modelos de boleteiras de peso e incômodo,
utilizadas em cavalos de hipismo e discutir suas principais
ações.
Palavra-chave:
Boleteira – cavalo de salto – técnica
de salto
Introdução
As
boleteiras foram desenvolvidas para proteger os cavalos
durante o trabalho, evitando que o animal se machuque quando
encoste um pé no outro, em várias modalidades
eqüestres.
Entretanto, na modalidade de salto, alguns cavaleiros perceberam
que o uso de boleteiras muito apertadas ou pesadas tinha
um efeito benéfico na sustentação do
posterior do cavalo no ar durante o salto, incorrendo em
menos faltas feitas pelos posteriores dos animais nas provas.
Por conta disso, a partir dos anos 90, foram desenvolvidos
diversos modelos de boleteiras com pesos e boleteiras de
incômodo ou pressão.
Tais equipamentos são largamente utilizados em provas
oficiais, devido a sua legalidade perante a Confederação
Brasileira de Hipismo (CBH) e a Federação
Eqüestre Internacional (FEI), que considera essa uma
técnica não abusiva ao cavalo.
Esse artigo visa apresentar os diferentes tipos de boleteiras
e comentar suas principais ações.
Metodologia
Para a elaboração deste artigo foram feitas
pesquisas de campo por meio de entrevistas com treinadores
de cavalos de hipismo, veterinários, e proprietários
de cavalos de hipismo; pesquisas bibliográficas e
testes pessoais.
Discussão e Resultados
Há no mercado inúmeros modelos diferentes
de boleteiras de performance, não existindo ainda
uma que sirva em todos os animais, mesmo por que não
são todos os cavalos que se beneficiam com o uso
das boleteiras de incômodo ou peso. A função
desejada é a utilização destes artifícios
em cavalos com deficiência em erguer e soltar seus
posteriores durante o salto. Esse defeito pode ocorre devido
à falhas no treinamento, má conformação
do animal ou por falta de talento do animal para o esporte.
BOLETEIRAS
DE PESO:
No caso das boleteiras de peso, trabalha-se com boleteiras
de couro, que possuem placas de chumbo em seu interior.
Quando colocadas nos pés de um cavalo, além
de gerar um incômodo, ainda geram um desequilíbrio.
Imaginando-se o posterior do cavalo como um pêndulo,
quando o mesmo salta, seu posterior é jogado para
trás. (FIG. 1)

FIGURA 1- Cavalo soltando o posterior para trás
Seria o princípio de uma pessoa balançando
os braços sem nada nas mãos e balançando
os braços com um peso em ambas as mãos. Quanto
mais na extremidade do membro estiver o peso, maior a sua
ação e mais difícil é interromper
a inércia do movimento.
Na hora do salto a força feita pelo cavalo com o
peso gera um desequilíbrio, por conta da inércia
do peso, embalando esse posterior mais para trás
e mais para cima, do que esse posterior iria chegar sem
peso nenhum. Não existe um peso padrão nestas
boleteiras; este valor oscila entre 100g a 800g em cada
boleteira. (FIG. 2)

FIGURA 2 – Boleteira de peso
BOLETEIRAS
DE PRESSÃO:
As boleteiras de pressão ou incômodo normalmente
são feitas de couro, que além de ser mais
resistente e pouco móvel ainda é relativamente
pesado. Vários modelos de boleteira têm surgido,
com alturas e larguras diferentes.
As boleteiras mais antigas, não tinham um ponto exato
para gerar o incômodo, sendo apenas colocadas mais
apertadas do que o normal nos pés dos cavalos. (FIG.3)
Tais boleteiras eram bastante grandes, chegando a uma altura
de 25 cm e uma largura de 20 cm. Muitos cavaleiros simplesmente
utilizavam as caneleiras mais altas produzidas para proteção
dos membros anteriores nos membros posteriores, com aperto
extra.
FIGURA 3– Boleteira de incômodo antiga.
O efeito das boleteiras de pressão ocorre porque
o cavalo possui dois pequenos ossos acessórios fixados
lateral e medialmente ao terceiro metatarso (canela do cavalo)
conhecidos como segundo e quarto metatarseanos, sob o quais
correm os ligamentos sesamoideos superiores (ou suspensores
do boleto). Paralelos a esses ossos rudimentares, descendo
em direção ao casco, existem os nervos plantares
medial e lateral. (FIG. 4) É sobre essa área
que agem a maioria das boleteiras de incômodo, fazendo
com que o cavalo solte seu posterior para cima e para trás
durante o salto.
Figura 4 - Vistas Lateral (A) e Medial (B) da região
inferior do membro posterior do cavalo. Os pontos anatômicos
sobre os quais agem as boleteiras de pressão são:
10: Terceiro Metatarsiano; 11 e 11a: Quarto Metatarsiano
e Segundo Metatarsiano; 22: Nervo Plantar Lateral; 14 e
15: Ligamento Sesamoideo Superior (Suspensor do Boleto).
Depois
da descoberta do ponto anatômico específico
que produzia o maior resultado, surgiram diversos modelos
de boleteiras visando pressionar e gerar uma irritação
sobre a parte distal dos ossos acessórios, ligamentos
e nervos anexos. A maioria destes acessórios possui
três tiras de aperto com velcro bem largas para fixar
com grande pressão o equipamento no membro do cavalo.
Ainda se observa nas provas uma versão mais nova
da boleteira da fig. 3. É uma boleteira de couro
sem peso, um pouco menor que a anterior, com 21 cm de altura
por 22 cm de largura. O avanço ficou por conta da
presença de protusões internas de espuma de
8cm de altura por 2cm de largura, que pressionam exatamente
sobre os pontos anatômicos já descritos. Fig
4

FIGURA 4 – Boleteira de incômodo grande. Notar
a presença das protusões internas de pressão
O último avanço nesse equipamento foi idealizado
e lançado no mercado pelo cavaleiro olímpico
brasileiro Álvaro Afonso de Miranda (Doda). Esta
boleteira não tem peso e é pequena. Tem de
22 cm tanto de altura quanto de largura e as protusões
internas possuem 8 cm de comprimento, com apenas duas tiras
de aperto. (FIG 5). “Não faz sentido utilizar
boleteiras tornando o posterior mais pesado e volumoso e
esperar que seu cavalo fique mais eficaz.” MIRANDA
¹. O equipamento tem seu funcionamento parecido com
o modelo anterior, porém a pressão se dá
na canela mais abaixo dos metatarseanos acessórios,
sobre os nervos plantares que seguem paralelos à
linha de pressão, até a entrada no boleto.
Nota-se que o efeito obtido por essa boleteira é
similar ao dos equipamentos maiores anteriores, o que nos
leva a crer que o que efetivamente funciona é a forte
pressão sobre os nervos plantares.

FIGURA 5 – Boleteira de incômodo Modelo Doda.
O terceiro tipo de boleteira seria uma fusão dos
modelos acima Surgiram as boleteiras de incômodo com
peso. Nestes modelos, o peso pode ser fixo ou possuir lugares
para o encaixe das placas de chumbo.
Essas boleteiras agem das duas maneiras: geram um incômodo
pela pressão na lateral da canela e um desequilíbrio
quando o animal salta. Em geral estas boleteiras são
mais leves do que as exclusivamente de peso. Seu peso gira
em torno de 100g até 400g.
A fig. 6 mostra um modelo deste equipamento com peso fixo
de 300g. Possui 18 cm de altura 23 cm de largura. As protusões
internas medem 9cm, com duas tiras de velcro. É uma
boleteira considerada muito forte.
Outro tipo de boleteira mista é a apresentada na
fig. 5. Essa tem efeito mais leve por possuir protusões
internas bem menores e a possibilidade de modificação
no peso, uma vez que têm um local onde as barras de
chumbo podem ser alteradas. Em geral, são utilizadas
sem os pesos em uma região mais alta do metatarso
e com os pesos sobre os boletos.

FIGURA 6 – Boleteira de incômodo e peso.

FIGURA 7 – Boleteira de incômodo e pressão.
Discussões
e Conclusões
Muita polemica já ocorreu no que diz respeito à
função e necessidade especifica deste tipo
de artifício no cavalo de salto. Efetivamente muito
pouco destes efeitos foi esclarecido por testes comprovatórios
científicos e realmente nada garante que uma boleteira
de peso ou de incômodo fará com que qualquer
cavalo que a utilize apresente melhora do seu emprego de
posterior durante o salto e nem que um tipo específico
de boleteira fará com que todos os cavalos soltem
seu posterior.
Cada boleteira apresenta um tamanho especifico assim como
cada cavalo apresenta conformação diferenciada
do segundo e quarto metatarsianos, sendo uns mais longos,
outros menores. Alguns animais têm maior sensibilidade
nos ligamentos suspensores do boleto e nervos localizados
na área do que outros.
Com relação às boleteiras de peso;
animais com pouca musculatura de membro posterior ou pouco
condicionamento podem ser lesionados pelo esforço
extra do peso sem força muscular para contrabalançar
seu efeito.
O responsável pelo animal deveria avaliar a real
condição física e conformacional de
seu animal e testar os vários tipos de boleteiras
com visão crítica em relação
aos seus reais benefícios.
Infelizmente, por ser um equipamento liberado ao uso em
competições, o que se vê muitas vezes
é o uso indiscriminado desses artifícios por
pessoas que não tem o conhecimento e discernimento
necessário para tal, muitas vezes não obtendo
nenhuma melhora na qualidade do salto e chegando a lesionar
seus cavalos.
Referências
[1]
MIRANDA, Álvaro Afonso. Disponível em: <
www.sidelinesnews .com/1802 /gSidelights Mikmer.html >
Acesso em: 02 de Junho de 2006.
GOODY,Peter
C. Anatomia Del Caballo – Ed. Acribia, Zaragoza –
Espanha, 1976. Pág. 66 e 67.
Arnd
Bronkhorst Photography. Disponível em: < www.arnd.nl
> Acesso em 12 de Junho de 2006.
PAALMAN,Anthony.Training
Showjumpers. Ed. Publishers, London, 1984.
LOVING,
Nancy. Conformation and Performance. New York: Imprelibros,
1997.