As Características da Pista de Corrida do Jockey Clube
do Paraná
A. Busato1; L. P. Boldrini2 & M. Jahnel3
1 Orientador
2 Acadêmico do Curso de Ciências Eqüinas
3 Colaborador
Curso de Ciências Eqüinas
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Resumo – Este artigo tem como objetivo demonstrar as
características encontradas na pista de corrida do
Jockey Clube do Paraná em junho de 2006, para que no
futuro esses dados possam auxiliar outros trabalhos no que
diz respeito ao melhoramento do desempenho e saúde
dos animais que utilizam a pista ou outras áreas de
tráfego de cavalos, onde tais dados possam vir a serem
úteis.
(Palavras-chave: pista de areia, Jockey Clube
do Paraná, corrida de cavalos).
Introdução
Independente
do Esporte Eqüestre a ser realizado, da raça do
cavalo que estiver competindo, da habilidade do cavaleiro
e do cavalo, um dos fatores comuns a todos sempre será
a pista; local onde esse cavalo irá demonstrar suas
habilidades. Hoje os órgãos responsáveis
no Brasil pelas provas eqüestres somente atentam em padronizar
a classificação do piso da pista: se a mesma
será de areia, grama, saibro, etc. e dimensões
a serem utilizadas em cada esporte; porém não
encontramos padrão relacionado ao material utilizado
para compor essas pistas, bem como uma metodologia padronizada
de construção das mesmas. Por conta disso, cada
entidade organizadora de prova a nível oficial estabelece
o padrão que bem entender.
Levando em consideração que a maioria das pistas
de esportes eqüestres oficiais no Brasil é de
areia, esse trabalho tem como objetivo caracterizar a pista
de areia usada atualmente no Jockey Clube do Paraná;
facilitando posteriormente maiores estudos relacionados à
formação, manutenção e conservação
das pistas que utilizam os mesmos princípios e materiais
na sua construção.
Metodologia
Para
o desenvolvimento desse trabalho foram utilizadas duas etapas;
sendo a primeira um questionário dirigido a três
tipos de profissionais que atuam diretamente no Jockey Clube
do Paraná: treinadores, jockeys e veterinários;
e análises laboratoriais para a determinação
da granulometria da areia; teor de umidade (na curva e na
reta) e quantidade de areia existente (na curva e na reta).
Resultados
Resultados referentes à pista e as condições
climáticas:
Encontrou-se aqui uma diferença na pista em relação
ao seu estado. Em dias secos e sem chuvas a pista se torna
seca, o que provoca algumas dificuldades no manejo dos animais.
A grande presença do pó causa o aumento de casos
de doenças pulmonares nos animais e jockeys, que inalam
a poeira constantemente. Encontrou-se também uma falta
de aderência e firmeza na pista para os animais trabalharem,
onde os mesmos afundam os membros na areia, fazendo muito
mais força que o normal para manter a velocidade. Com
isso o rendimento dos animais tende a cair e há um
provável aumento de lesões por uma necessidade
de esforço maior.
Em dias de muita chuva encontramos uma pista em estado encharcado.
Um acúmulo de água muito grande na pista demonstrou
uma provável deficiência na sua drenagem. A condição
de uso nesse perfil de pista, segundo seus usuários,
é a pior possível. Além do acúmulo
indesejado de água na pista, o aparecimento de inúmeros
buracos devido a uma falta de manutenção é
grande. A presença destes buracos torna o trabalho
do jockey e do treinador ainda mais complicado, pois inúmeros
animais se lesionam de alguma forma ou até mesmo se
fraturam por pisarem nos buracos. Outra característica
desse perfil de pista é também, a força
que os animais têm que fazer para trabalhar. Devido
à falta de areia em alguns trechos, (FIG. 1) a base
da pista acaba exposta; e pela pista estar encharcada e o
solo dessa base ser de origem argilosa, esse material acaba
aderindo nos cascos dos cavalos fazendo com que os mesmos
tenham de fazer mais força para se moverem, como no
caso da pista seca e é justamente essa força
em excesso que pode machucar os animais. Outro ponto bem frisado
pelos profissionais é o grande número de cavalos
que ao treinar nesta condição de pista retornam
com lesões nos machinhos, (sob os boletos), acarretando
custos com tratamentos.
O terceiro perfil de pista analisada é o que chamamos
de pista molhada. Nesse perfil de pista, a mesma é
irrigada até que chegue ao padrão esperado para
sua melhor utilização. Encontramos esse perfil
também quando chove de forma moderada, onde a chuva
apenas umedece a pista. Nesse tipo de pista o problema do
pó praticamente desaparece, as condições
da falta de aderência e firmeza são praticamente
eliminadas e por permitir uma melhor manutenção,
os buracos não são mais um problema generalizado.
Essa seria a condição ideal de trabalho na pista.

FIG. 1 – Falta de areia no trecho da reta entre os 1.300
m aos 1.200 m
Observações referentes ao uso diário
da pista e sua manutenção:
O uso da pista de corrida do Jockey Clube do Paraná
é feito diariamente de forma constante, salvo aos Domingos
onde a grande maioria dos animais recebe sua folga semanal.
A presença de uma pista lateral exclusiva para treinos
é algo muito superficial. Dos entrevistados, todos
alegaram que 95% dos seus animais fazem o trabalho de treino
na pista de corrida e não na destinada para treinos,
por conta da menor quantidade de areia e falta de manutenção
da pista de treino, o que faz com que suas características
se tornem perigosas para os animais.
No que se refere ao uso da pista principal durante as competições,
além do que já descrito anteriormente, atentamos
ainda aos seguintes pontos levantados pelos jockeys e treinadores:
Primeiro: animais que correm ou correram em pista de grama
e vem disputar corridas em pista de areia, naturalmente sentem
mais dificuldades e muito raramente mantém o mesmo
tempo que conseguiam na pista de grama; em animais que correram
a sua vida inteira em pista de areia e fazem algumas corridas
em pista de grama, alguns não voltam a correr como
antes na areia e em alguns casos se recusam a correr na areia
novamente. Segundo: animais que foram treinados em pistas
onde a base não é composta por concreto e asfalto
e vão competir em pistas com essas características,
têm que se adaptar à pista – uma vez que
a pista com base de concreto e asfalto é mais rápida
e dura, mas quando se adaptam, em sua maioria são competitivos.
O oposto já não é verdadeiro. Animais
que sempre correram em pistas com base de concreto e asfalto
e que nunca correram em pistas com base argilosa, mesmo após
período de adaptação, em sua grande maioria
não são tão competitivos com animais
que foram preparados ou que sempre correram nas pistas de
base mais mole. Outro dado importante é que a porcentagem
de animais com lesões nas pistas com base de concreto
e asfalto é muito mais alta. No que se refere à
manutenção da pista, há um descontentamento
generalizado. As características percebidas em relação
às condições climáticas, são
em sua maioria, um reflexo da falta da manutenção
adequada. A pista seca, se molhada de uma forma eficiente
se tornaria uma pista molhada, o que é o perfil realmente
procurado. Se houvesse manutenção da pista encharcada
com grades e rolos, não se acumulariam os buracos,
amenizando muito as lesões nos animais. Note-se ainda,
a presença de pedras (FIG. 2), que se faz freqüente
na extensão da pista devido ao tráfego dos animais
atingirem a base com muita facilidade e as trazerem para a
superfície da pista. Outro ponto de critica da pista
é com relação ao mecanismo de irrigação
existente atualmente (FIG. 3). O equipamento não consegue
ter pressão suficiente para irrigar toda a pista e
molha apenas metade da raia, deixando ainda poças de
água na frente do irrigador, encharcando a pista nesses
trechos. .

FIG. 2 – Pedra encontrada ao lado do rastro de um cavalo.
(Trecho da reta entre os 1.300 m aos 1.200 m)
FIG. 3 – Sistema de Irrigação usado no
Jockey Clube do Paraná.
Resultado da análise granulométrica:
Perceberam-se diferenças na granulometria da areia
nos pontos analisados, como mostram os gráficos (FIG.
4 e 5). Nota-se um aumento na porcentagem dos grãos
maiores: entre 1,3 mm a 0,59 mm, no centro da pista, tanto
na reta como na curva. Os grãos que compreendem uma
granulometria menor, entre 0,42 mm a menores que 0,25 mm,
encontram-se em maior quantidade nas extremidades da pista.
Resultado do teor de umidade:
Para
essa análise utilizou-se um ponto de referência
fornecido pelo jockey (trecho da reta dos 200m aos 100m) que
seria o ponto ideal de uso da pista, com relação
à umidade da areia. Com base nessa referência
foi construído um gráfico (Fig. 6), onde se
encontrou um solo mais seco na parte interna da pista, tanto
na curva como na reta. Conforme as amostras chegam ao centro
da pista, o teor de umidade aumenta. Na curva, encontrou-se
um excesso de umidade em um dos pontos próximo a parte
externa da pista.
Resultado
da quantidade de areia:
O
resultado da análise de campo mostra a quantidade de
areia existente em cada local analisado. Existe uma variação
por todos os pontos analisados, o ideal seria esse valor se
manter estável e o mais próximo possível
de um valor que corresponda a uma profundidade confortável
para o animal, que seria por volta de 70 mm (LODGE e SHANKS,
1994 e YOUFU 2002).
Observando os gráficos (FIG. 7, 8, 9 e 10) podemos
fazer uma comparação com os locais analisados,
e notarmos a falta de areia na parte interna da curva quando
comparada à parte interna da reta. Outra característica
observada é uma diferença na quantidade de areia
encontrada na parte interna da raia em relação
à externa (trecho da reta dos 1.400 m); já no
trecho da reta dos 1.200 m essa característica não
é observada, onde a quantidade de areia encontrada
na parte interna da raia se estende homogeneamente por mais
da metade da raia.
Nas FIG.s 11 e 12, podemos observar uma comparação
entre os locais analisados no que se diz respeito à
quantidade de areia.
Conclusões
O objetivo desse trabalho foi exclusivamente de caracterizar
a pista de corrida do Jockey Clube do Paraná como ela
se encontra atualmente.
Após a análise dos resultados, fica claro o
quanto difícil é construir e manter uma pista
de esportes eqüestres. Todas as necessidades para a construção
e manutenção de uma pista são complexas
e um pequeno erro pode desencadear outros.
A importância de uma cooperação entre
os usuários e profissionais que a utilizam, e a importância
de uma caracterização da pista ficou patente.
Sem as informações fornecidas e a experiência
de cada grupo profissional entrevistado, a coleta dos dados
corretos seria impossível.
Com relação aos dados técnicos, foi amplamente
comprovado que a pista de corridas analisada não é
homogênea sob vários aspectos, e que essas diferenças
podem prejudicar os animais e usuários da pista. Com
um estudo desse tipo em mãos, fica mais fácil
pontuar os motivos e a localização exata dos
problemas nesta e em outras pistas similares, e quem sabe
em um futuro próximo, efetivar o aprimoramento da pista
com investimentos nos pontos problema, o que levaria a uma
boa economia de recursos. Assim procedendo, poder-se-ia chegar
o mais próximo possível de uma pista ideal para
o trabalho de animais de alto padrão genético
e alto valor comercial com segurança, qualidade e viabilidade
econômica.

FIG. 4 – Diferenças na granulometria na reta.
(Trecho dos 1.300 m aos 1.200 m)

FIG. 5 – Diferenças na granulometria na curva.
(Trecho dos 800 m aos 700 m)

FIG. 6 – Diferença no teor de umidade encontrado
na reta e na curva, em comparação com o valor
referencial.

FIG. 7 – Diferença na Quantidade de Areia no
inicio da reta (1.400 m aos 1.300 m)

FIG. 8 – Diferença na Quantidade de Areia no
meio da reta (1.200 m aos 1.100 m)

FIG. 9 – Diferença na Quantidade de Areia no
inicio da curva (900 m aos 800 m)

FIG. 10 – Diferença na Quantidade de Areia no
meio da curva (800 m aos 700 m)

FIG. 11 – Comparação da Quantidade de
Areia na Reta.
FIG. 12 – Comparação da Quantidade de
Areia na Curva.
Referências
[1]LODGE,R.;
SHANKS,S.. All-Weather Surface for Horses. London, 1994.
[2]YOUFU,K..
Stage for the Japan Cup & Japan Cup Dirt 2002. Disponível
em: < http://www.jair.jrao.ne.jp/journal/v10n2/j1000f.html
> Acesso em: 14 Junho 2006.
Agradecimentos:
A minha orientadora Professora Adriana Busato, pela sua ajuda
e incentivo no desenvolvimento do trabalho; ao meu colaborador,
Professor Marcelo Jahnel pela sua paciência, esclarecimentos
e ajuda na confecção do trabalho e aos profissionais
do Jockey Clube do Paraná em especial ao Sr. Márcio
Gusso, Sr. Pedro Nickel Filho, Sr. Emerson Cruz e o Dr. Pedro
Michelotto pela colaboração e ajuda na coleta
dos dados.
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