| A
Demanda Contemporânea do Hipismo-I
A satisfação das necessidades
Existem as necessidades, não há como nega-lo,
porém, a exemplo de outros caminhos em que vivemos,
elas se expressam em graus, em níveis.
Temos, num nível que chamamos rinoencefálico,
necessidades ligadas à auto-preservação
da espécie, pertinentes à alimentação,
abrigo e reprodução. Trata-se, no caso, de necessidades
que nos animam, nos põem em movimento, independente
de um comando voluntário. O sistema biológico
simplesmente prioriza estas necessidades e nos lembra delas
repetidas vezes. Então, nos ocupamos em atendê-las
e dedicamos a isto vários momentos do dia e estas características
estão presentes em todos os seres cerebrais, sejam
répteis, aves ou mamíferos.
Aprofundando um pouco mais a questão, encontramos necessidades,
com uma demanda emergencial menor, que a preservação,
manutenção e perpetuação das espécies.
São as demandas de segundo grau, necessidades gregárias
expressas pelo sistema límbico, encontrado no cérebro
dos mamíferos, onde tem uma maior presença de
atuação. No que Tange às necessidades
gregárias, elas são como uma ‘sofisticação’
do sistema biológico. Mamíferos, sejam quais
forem (estamos incluídos), vivem em grupos, tem contato
físico e social, interagem.
Essas são, como afirmamos, necessidades de ‘segunda
demanda’ , o que não quer dizer que possamos
ou devamos despreza-las. Estas são, de fato, necessidades
de expressão mais sutil, o que requer um conhecimento
científico mais pormenorizado da questão para
poder-se atuar com a devida eficácia.
Quando privamos um mamífero de, por exemplo, contato
com sua espécie, o sistema biológico começa
a mandar sinais que estimulam a ação visando
à satisfação da necessidade, pois no
caso deles (mamíferos), este contato é vital
para a preservação da espécie.
Simplificando, estes sinais são enviados a nossas células
pelos neuro peptídeos, que são os responsáveis
pelos ‘alarmes biológicos’, trazendo-nos
sensações e sentimentos que se abatem sobre
o nosso sistema nervoso central, gerando respostas comportamentais
como tristeza e solidão, no caso da privação
do contato, além de muitas outras.
Evidentemente a solidão não se apresenta de
maneira tão material como um trauma ou uma disfunção
orgânica, mas um mamífero acometido por estes
estados de ânimo tem, a médio prazo, uma muito
maior pré- disposição, não somente
a aludida disfunção orgânica, como a toda
sorte de baixas de desempenho biológico.
Não somos cavalos mas somos mamíferos, e, em
algum grau, cada um de nós já se deparou com
a sensação de solidão e pôde perceber
que não se trata da melhor das sensações,
bem como é também perceptível, a baixa
de desempenho que nos acomete para a mais trivial das tarefas
além dos sentimentos indesejáveis que se desencadeiam
no processo.
Privar um mamífero de contato por longos períodos
de tempo, seja ele humano ou eqüino, é um ato
de crueldade e justificar este ato através da exposição
de nossos ‘motivos’ de conveniência, quer
sejam eles sociais ou culturais, não o anula.
Em nosso caminho evolutivo, tomamos, muitas vezes, direções
que se opõe ao nosso traçado original a nossa
idéia inicial, mas à medida que tomamos consciência
de nossos atos, em suas muitas variações e conseqüências,
podemos decidir buscar os meios para sua volta ao rumo.
Podemos aprender com isso e permitir, estimular e providenciar
aos que nos são próximos, nossos amigos, nossos
cavalos e nossos amores à satisfação
de necessidades mais sutis. Isso, sem dúvida, merece
uma profunda reflexão...
André Luiz Vaz Bez
|